Gastronomia

Mesa de sábado: o almoço que dispensa receita de chef

Mesa de almoço de sábado com pratos simples e luz de janela

Na mesa da família Ribeiro, em Pinheiros, o sábado começa sem cardápio fechado. Tem arroz, tem salada de folha com limão, tem frango assado ou peixe quando o marido volta da feira. O que muda — e quem visita percebe de imediato — é o tempo: ninguém olha o relógio, ninguém pede delivery «porque deu trabalho». O almoço dura duas horas, às vezes três, entre uma história e outra.

Esse cenário se repetiu em dezenas de conversas que tivemos nas últimas semanas em São Paulo, Belo Horizonte e Salvador. Não estamos falando de retorno à «tradição familiar» idealizada — muitas dessas mesas são de amigos que se juntam, casais sem filhos, avós que recebem netos alternados. O fio condutor é outro: uma vontade coletiva de desacelerar sem transformar o sábado em evento instagramável.

O que voltou para o centro da mesa

Em BH, a designer Camila Duarte conta que parou de reservar restaurante todo sábado depois que percebeu que saía mais cansada do que entrava. «Eu passava a semana correndo e pagava para continuar correndo, só que com garçom.» Hoje convida duas ou três amigas, cada uma leva um prato simples, e a regra é celular na gaveta da entrada.

Em Salvador, no bairro do Rio Vermelho, o músico Jorge Azevedo retomou o almoço dominical estendido para o sábado — herança da mãe baiana, mas sem a obrigação de feedar dez pessoas. «Faço moqueca para quatro. Se sobrar, vira jantar. Se não sobrar, também está bom.»

Simplicidade não é preguiça

Há uma diferença importante entre mesa simples e mesa negligente. As cozinhas que visitamos tinham cuidado com tempero, com temperatura do prato, com um pano limpo na mesa. O que foi abandonado foi a performance: sous-vide de fim de semana, entrada três tempos, compra de ingrediente caro só para impressionar.

O almoço de sábado bom é aquele em que você esquece de fotografar antes de começar — e não se arrepende.

A nutricionista Renata Pires, consultada para esta matéria, lembra que rituais alimentares regulares ajudam na relação com comida — mas alerta: «romantizar o passado pode ignorar quem trabalha no sábado e não tem tempo de cozinhar». O ponto não é culpar quem pede marmita; é reconhecer que, para quem pode escolher, a mesa caseira voltou a ser desejo, não castigo.

Objetos que ajudam

Sem virar lista de compras: travessas de barro que mantêm calor, guardanapo de pano que não precisa combinar, cadeira extra que já mora no corredor. Lívia, que assina esta matéria, observa que o design da mesa de sábado é funcional — cabe mais gente, sobra espaço para cotovelo, a jarra de água fica no centro porque alguém vai esquecer de beber.

Para as próximas edições, vamos seguir famílias que alternam quem cozinha e registrar o que muda quando chove, quando chega visita de última hora, quando alguém vira vegetariano temporário. O almoço de sábado não é tendência de busca — é conversa que continua na segunda-feira pelo telefone.

Atualizado em 12 jun 2026 às 09h15 (horário de Brasília).